Livros como antídoto ao isolamento: um guia para tempos de coronavírus

ilustração de Quinho é uma intervenção em tela do pintor norte-americano Edward Hopper, que retratou o isolamento no século 20(foto: Quinho)

Escritores, críticos, professores e jornalistas indicam grandes livros de ficção, todos com mais de 500 páginas, para ler, ou reler, nas próximas semanas

“Como se eu já não tivesse sofrimentos de sobra, participo voluntariamente nos de mil pessoas imaginárias, e sinto-os com tanta intensidade como os meus próprios.” Assim o escritor francês Xavier de Maistre (1763-1852) descreve em ‘Viagem ao redor do meu quarto’ os dilemas de um confinado que enumera os recursos necessários para fazer passar “as horas que deslizam por cima de nós e caem em silêncio na eternidade”: “Um bom fogo, livros, penas.” São 42 dias de reclusão que terminam com a descoberta de um mundo imaginário, “rico país”, na biblioteca.
Para enfrentar o período de recolhimento determinado pela disseminação do coronavírus, o Pensar seguiu os ensinamentos de Maistre e pediu indicações de leituras a escritores, críticos literários, professores universitários e jornalistas. Romances de outros séculos e contemporâneos, nacionais e internacionais, se alternam entre as sugestões.

Porque é essencial cuidar do corpo e da mente, eis o convite: aproveite as horas em casa e faça uma viagem para outras cidades, outros países, outros tempos, mundos imaginados. Para enfrentar uma realidade mais assustadora que a ficção.

-Grande sertão: veredas

João Guimarães Rosa – 560 páginas, Companhia das Letras

• Rogério Faria Tavares, jornalista, presidente da Academia Mineira de Letras

‘Deus é paciência’, diz Riobaldo, em certo trecho de Grande sertão: veredas. Não há verdade maior, nas semanas que correm. Sem saber a extensão do recolhimento forçado a que será preciso se submeter, o jeito é aceitar a situação e esperar. Se possível, na companhia das pessoas queridas. E dos bons livros. Embrenhar-se no sertão de Guimarães Rosa é tentação a que não se deve mais resistir, agora que haverá tempo para se perder em suas matas e em seus rios. Aventura oportuna e até necessária quando a fragilidade da condição humana está tão evidente, e em que ‘cada hora, de cada dia, a gente aprende uma qualidade nova de medo!’, como desabafa o Tatarana em outra passagem.
Conseguiremos realizar as travessias que o destino agora nos impõe? Lançado em 1956 pela Editora José Olympio, o romance logo conquistou prêmios importantes e traduções para vários idiomas. Correndo o planeta, cativou legiões de leitores aficionados, que sabem dizer de cor passagens inteiras. Seu texto é até hoje analisado e comentado, seja nas universidades, seja nos milhares de clubes de leitura espalhados por toda parte.
Reeditado sucessivas vezes, desde então foi rapidamente alçado à condição de uma das obras literárias mais potentes do século 20. Para muitos, é uma das três únicas epopeias escritas em língua portuguesa, ao lado de Os lusíadas, de Camões, e Os sertões, de Euclides da Cunha. Indiscutivelmente clássico, vai atravessar as décadas e permanecer, cumprindo sua vocação de circulação global.
Afinal, ‘o sertão é do tamanho do mundo’. Como já observou a crítica especializada, Grande sertão… superou qualquer limite do regionalismo, ainda que haja ambientado a sua trama em geografia e em cultura bem delimitadas. Não cedendo ao apelo do exótico ou do pitoresco, construiu personagens de padrão universal, capazes de exprimir, com sofisticação, os dramas mais complexos da humanidade, como os relacionados ao amor, ao poder, à traição, à existência da divindade e do demônio.
E os expressou em língua própria, de tocante musicalidade, de impressionante riqueza vocabular, de estreitos vínculos com raízes antigas do idioma – do nosso e de outros tantos. Num delicado encontro com a tradição oral, gerou escrita nova, parindo palavras insabidas, revelando universos fascinantes e perigosos. Assim como é bastante perigoso o ato de ler, de abrir a mente, de alterar para sempre as suas percepções sobre o que a cerca.”

-O engenhoso fidalgo D. Quixote de La Mancha

Miguel de Cervantes  1.608 páginas, Editora 34

  • Rodrigo Casarin, crítico literário (blog Página Cinco)

“É um clichê, mas quantas pessoas até hoje não leram este clássico espanhol do começo do século 17,  fundamental para o conceito de romance, não é!? É a Dom Quixote que recorro sempre que a vida anda difícil demais, algo bastante corriqueiro nesses dias em que vivemos. A capacidade de fabular e criar a própria realidade me fascina. Às vezes, só queremos mesmo é crer que moinhos de vento sejam dragões e que há alguma Dulcineia esperando por nós. Gosto especialmente da tradução de Sérgio Molina para os dois volumes da Editora 34.”

  • Sérgio Rodrigues,escritor, autor dos livros O drible e A visita de João Gilberto aos Novos Baianos, entre outros  “O momento em que mais temos tempo para ler é também o momento em que vemos mais abaladas as coordenadas de nossa compreensão do mundo, pressentindo nada menos que o fim de uma era. Não é qualquer livro, mesmo entre aqueles excelentes, que escapa ao risco de parecer irrelevante ao leitor em hora tão brutal. Esse perigo não ameaça Dom Quixote. Desde o século 17, já atravessou sucessivos fins e começos de era e permanece firme, segundo consenso da crítica, no posto de romance fundador do gênero ou mesmo no de romance que contém em si todos os romances escritos desde então. Além do mais, é diversão garantida, e conta com uma tradução recente (e excelente) de Ernani Ssó para a Penguin-Companhia.”
  • Luiz Antonio de Assis Brasil,escritor, autor de Escrever ficção: um manual de criação

literária “Talvez a obra mais referida – ao lado do Hamlet – da literatura ocidental. Neste romance-rapsódia de Miguel de Cervantes, vemos, para além da conhecida paródia dos romances de cavalaria, uma profunda imersão na psique humana, com tudo o que ela tem de sublime, grotesco e risível. De bônus, nos dá uma personagem inesquecível, que é o patético Sancho Pança. Diversão e inteligência garantidas.”

-Um defeito de cor 

Ana Maria Gonçalves – 952 páginas, Record

  • Paulo Scott,escritor, autor de romances  como Marrom e amarelo

“A literatura consegue tocar com sua profundidade corações e mentes como a ciência, a filosofia, os registros históricos e as outras artes não conseguem. No Brasil, temos uma dificuldade enorme em nos reconhecer como negros, como indígenas, como não brancos – pergunte a um norte-americano ou a um europeu do Norte da Europa se brasileiros são brancos. Levados esses aspectos em conta, impossível não reconhecer a força e a singularidade de Um defeito de cor, talvez a narrativa longa de ficção mais importante publicada neste século no Brasil – obra-prima que apresenta uma protagonista e uma trama que envolvem os leitores e os sensibilizam como poucos romances poderiam fazer. Há um imenso pano de fundo composto por vários fatos históricos, muitos deles negligenciados pelas escolas e pela academia, fatos importantíssimos para a formação e a formatação da identidade mestiça deste país absolutamente mestiço que é o Brasil. Uma obra que todos os brasileiros, independentemente da cor da pele, deveriam conhecer.

  • Maria Camargo,escritora, roteirista da série sobre o romance de Ana Maria Gonçalves

“Um defeito de cor é mais que um livro, é um mundo inteiro que se revela. Pelos olhos de uma mulher negra, uma história que não é contada nas escolas (e um outro Brasil) entram em cena. É uma história de escravidão e dor, como não poderia deixar de ser, mas vai bem além: é, acima de tudo, história de resistência, de superação, de amor e alianças. De uma mulher cheia de complexidades em busca de seu lugar no mundo. Pra quem estiver disposto a seguir com Kehinde, o livro é uma jornada de transformação também para quem lê. Uma oportunidade de mudar a forma de olhar e de viver. Nada mais adequado para os dias que virão.”

-Romance d’A Pedra do Reino 

Ariano Suassuna – 800 páginas, Nova Fronteira

  • Ney Anderson,escritor e crítico literário (site Angústia Criadora)

“A explosão máxima do lúdico, da fantasia, tendo o sertão brasileiro como base, mas trabalhado em doses altas do onírico, onde cabe tudo e mais um pouco. É a epopeia de um personagem louco, delirante, e por isso mesmo apaixonante e inesquecível. Entrar nas aventuras de Quaderna não é tarefa das mais fáceis, justamente por sua abundância de ideias. No entanto, é uma viagem sem volta, bom para ler nestes dias de recolhimento, que estabelece de imediato algo muito maior que só a literatura pode proporcionar. O sentimento (e o entendimento) de um Brasil profundo, que precisa sair da realidade (mesmo estando com os dois pés encravados nela) para poder continuar sobrevivendo e so- nhando.”

-Beira-mar

Pedro Nava – 552 páginas, Companhia das Letras

  • Antônio Sérgio Bueno,professor de literatura brasileira da UFMG

“De toda a grande obra de Pedro Nava, o maior memorialista em língua portuguesa de todos os tempos, acho que Beira-mar, o quarto volume, é o mais importante para quem ama e/ou mora em Belo Horizonte. Nesse livro, cujo título foi sugerido ao autor por Lucio Costa, o idealizador do Plano Piloto de Brasília, o memorialista focaliza sua vida de estudante de medicina, demorando-se também na sua convivência com o extraordinário grupo de jovens literatos que formaram o famoso Grupo do (bar) Estrela, composto pelo próprio Nava, o poeta Carlos Drummond de Andrade,  o então futuro governador de Minas Gerais Milton Campos, entre outros. O leitor estará diante de um espaço mais que vivido, vivo, nos anos 20 do século 20. A vida intelectual e, também, boêmia desses brilhantes jovens que o acaso reuniu na capital dos mineiros é retratada nesta obra-prima. Mais do que nunca é necessário reler Pedro Nava para redescobrir nosso próprio endereço cultural.”

-71 contos

Primo Levi – 528 páginas, Companhia das Letras

  • Fernanda Diamant,curadora da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip)
    “A coletânea revela o lado ficcionista do escritor italiano, mais conhecido por seus extraordinários relatos autobiográficos que denunciam a inominável tragédia do nazismo. Ficção científica e literatura fantástica são alguns dos recursos que Levi, autor de É isto um homem? (1947) e A trégua (1963), usa para tratar da fragilidade e da espiritualidade humanas.”

-As correções

Jonathan Franzen – 582 páginas, Companhia das Letras

  • Carlos Marcelo
    “Vencedor do National Book Award 2001, As correções antecede Liberdade, outro grande romance do escritor, nascido em 1959. Com tintas autobiográficas, Franzen pinta um retrato vigoroso dos desejos e frustrações de uma família norte-americana. Os desacertos entre os pais, setentões, e os três filhos rendem passagens excruciantes e sublimes. E o significado do título é inteiramente desvendado apenas nas páginas finais, no vislumbre da mais aterradora das esperanças.”

-Exodus

Leon Uris – 714 páginas, Record

  • Luize Valente,escritora, autora de romances como Uma sonata em Auschwitz
    “Publicado em 1958, este romance épico narra um dos períodos mais dramáticos e conturbados da história. Traz a saga de um grupo de sobreviventes do Holocausto que chega à então Palestina a bordo do navio Exodus, em meio à acirrada luta pela criação da tão sonhada nação judaica – o Estado de Israel.  Uris dominava, como poucos, a narrativa épica. A intensa história de amor entre uma enfermeira americana e um soldado israelense é o fio condutor de uma trama que se desenvolve no pós-guerra, num mundo degradado física e mentalmente. Um livro que flui, sem didatismo, com uma escrita que permite ao leitor vivenciar, se emocionar e, ao mesmo tempo, conhecer os acontecimentos  deste momento tão traumático do século 20.”

-Viva o povo brasileiro

João Ubaldo Ribeiro – 640 páginas, Alfaguara

  • Rodrigo Lacerda,escritor, autor de Outra vida e O fazedor de velhos, entre outros
    “Compondo um mosaico muito amplo, esse clássico da nossa literatura recente atravessa séculos da história do Brasil e é escrito por um virtuoso da língua portuguesa, capaz de criar vozes narrativas impressionantes, provenientes de todos os extratos da nossa sociedade, também de fazer uma espécie de recapitulação de tudo o que se fez antes dele, literariamente falando.”

-Os sertões

Euclides da Cunha – 928 páginas, Ateliê Editorial

  • Rodrigo Lacerda,escritor, autor de Outra vida e O fazedor de velhos, entre outros

“Um livro no qual é difícil avançar, mas que, além de retratar um episódio paradigmático da história do Brasil, o massacre de Canudos, cria uma “liga” fascinante entre o homem, a natureza e os desafios sociais do nosso país.”

Crônica da casa assassinada

Lucio Cardoso – 546 páginas, Civilização Brasileira

  • George Moura,roteirista de séries como Onde nascem os fortes e filmes como Redemoinho, a partir de romance de Luiz Ruffato “Daqueles livros que você compra e deixa na cabeceira olhando-o. Numa arrumação, ele se afasta e vai para a estante, até que um dia volta às suas mãos, quando você toma a decisão de se atracar com as 536 páginas do tijolo sólido. Foi assim comigo, uma vertigem. E com um dado a mais. Nunca tinha lido Cardoso e já mergulhei no seu romance mais complexo por ossos do ofício. Era a encomenda feita pelo diretor José Luiz Villamarim para o roteiro de um filme. Entrei de cabeça na história de Nina e Ana e no declínio da família Meneses. O livro, escrito como se fosse um diário de vários personagens, é uma floresta densa repleta de reviravoltas movidas a desejos vividos e outros tantos reprimidos. É assim a vida em família, feita de amores e rancores. Crônica… é alta literatura, com uma minúcia barroca de tirar o fôlego, perturbador. Nestes tempos de isolamento forçado, a jornada na obra de Cardoso pode ser um bom ponto de fuga, mas sabendo que você será brindado com o belo e com o amargo da tragédia do desejo. Em tempo: Villamarim é mineiro. E a produtora do filme, Vânia Catani, também. Pedido de mineiro para ler um autor mineiro é difícil de resistir. Hoje, invejo quem ainda não leu Crônica da casa assassinada: queria começar tudo de novo, como se de nada eu soubesse.”

-2666

Roberto Bolaño – 856 páginas, Companhia das Letras

  • Mateus Baldi,crítico literário (Resenha de bolso)
    “Publicado após a morte de Bolaño, 2666 é um romance inacabado, mas não incompleto. Estruturado como cinco romances em um mesmo volume, trata-se de uma epopeia sociocultural que visa compreender as últimas décadas da história ocidental. Viajando da Segunda Guerra à fronteira mexicana, onde mulheres são brutalmente assassinadas diariamente, Bolaño ergueu estas quase mil páginas em que violência e literatura caminham lado a lado. Os dois eixos principais são Benno von Archimboldi, espécie de Thomas Pynchon ainda mais recluso que o autor norte-americano, e os assassinatos de mulheres em Santa Teresa, ficcionalização de Ciudad Juárez – em algum momento estas linhas se cruzam. Brutal, incômodo e um presente para os amantes da boa literatura, 2666 é o livro perfeito para tempos de desespero: suas páginas caudalosas, cheias de longos parágrafos, derramam o melhor e o pior da humanidade, transportando-nos para um universo paralelo que pode muito bem virar o nosso a qualquer momento.”

Baudolino

Umberto Eco – 602 páginas, BestSeller

  • Braulio Tavares, escritor, compositor e tradutor
    “Romance ambientado no século 12 e o mais divertido do autor de O nome da rosa. Baudolino é um herói picaresco típico, por sua origem (filho de camponeses ignorantes), mas que, graças a algumas coincidências bem cordelescas, acaba encontrando e caindo nas graças do imperador Frederico Barbarossa, e se torna seu protegido. A espantosa quantidade de informações no romance deve ter sido assimilada por Eco ao longo de muitas décadas de leitura, daí a facilidade com que ele sai costurando os episódios históricos da época com a linha ficcional das peregrinações de Baudolino, um Forrest Gump medieval. Mesmo que alguém não esteja disposto a encarar o romance, vale a pena ler o capítulo 1, “Baudolino começa a escrever”. O texto reproduz as primeiras tentativas do herói de contar sua própria história, numa algaravia que mistura latim e outras línguas, cheia de erros cômicos de ortografia, palavrões, etc.  Algo certamente difícil e divertido de traduzir (a tradução é de Marco Lucchesi).”

– Graça infinita

David Foster Wallace – 1.144 páginas, Companhia das Letras

  • Sérgio de Sá, crítico literário e professor universitário
    “No romance que levou David Foster Wallace (1962-2008) ao estrelato mundial, o entretenimento vicia a ponto de levar à morte. O prazer da diversão é vírus letal. Entre casa de recuperação e academia de tênis, personagens sobrevivem na linguagem múltipla e no estilo único do autor norte-americano. Se puder, leia no original (Infinite jest), publicado em 1996. Ali, o texto comporta menos gracinhas e mostra mais a potência da ficção.”

-Os livros da selva: Mowgli e outras histórias

Rudyard Kipling – 560 páginas, Penguin

  • Rodrigo Lacerda,escritor, autor de Outra vida e O fazedor de velhos, entre outros
    “Mal compreendido ora como um adepto da tirania imperialista, ora como um autor de histórias para crianças, devido ao sucesso do personagem Mowgli no desenho de Walt Disney, Kipling é um escritor excepcionalmente sensível aos elementos da natureza e consegue uma linda fusão entre literatura e ecologia nos contos deste livro, seja nas histórias envolvendo Mowgli ou nas outras.”

-A montanha mágica

Thomas Mann – 856 páginas, Companhia das Letras

  • Rodrigo Lacerda,escritor, autor de Outra vida e O fazedor de velhos, entre outros
    “Quase uma gafe indicar, durante a pandemia, um livro no qual os personagens estão isolados num sanatório para tuberculosos, mas o livro é uma leitura muito mais fácil e agradável do que se costuma supor, apesar de não ser pequeno, e as questões políticas, filosóficas e humanas que coloca são eternas, sendo sempre útil pensar sobre elas.”

Crime e castigo

Dostoiévski – 603 páginas, Todavia

  • Cristovão Tezza,escritor, autor de A tirania do amor, entre outros romances
    “Vou aproveitar a reclusão obrigatória do coronavírus para ler mais. Indico a leitura, ou releitura, de Crime e castigo, agora em nova tradução, direta do russo, de Rubens Figueiredo. É um livro impactante de um autor que parece ficar mais contemporâneo quanto mais o tempo passa. Toda a obra de Dostoiévski investiga ficcionalmente os fundamentos morais da modernidade, um tema que ganha um foco impressionante neste romance, a história de um jovem intelectual que mata uma velhinha agiota “que não faria falta à sociedade”. E já na estão na pilha dois outros livros de fôlego: o romance Ritmo louco, de Zadie Smith (Companhia das Letras, 526 páginas), uma autora que (mea-culpa!) ainda não conheço, e o poema clássico Paraíso perdido, de John Milton (Editora 34, 891 páginas), numa edição bilíngue irresistível, com tradução, posfácio e notas de Daniel Jonas, apresentação de Harold Bloom e, como se não bastasse, ilustrações de Gustave Doré. Uma viagem sensacional.”

-Asfalto selvagem

Nelson Rodrigues – 656 páginas, Agir

  • Paulo Werneck,editor da revista literária 451
    “Asfalto selvagem é meu livro preferido de Nelson Rodrigues e é perfeito para ser lido agora. Não só pela extensão convidativa (ou “convidativa”?) para a quarentena, mas por retratar um Brasil às vésperas do golpe de 64, prenunciando muito do Brasil que viria pela frente. O juiz Odorico Quintela, que por ser do Judiciário se recusa a pagar corridas de táxi e pede favores a comerciantes e jornalistas, é um dos melhores personagens criados por Nelson. É genial e absolutamente atual a forma como o autor incorpora personagens reais (quase todos amigos dele ou colegas de redação) e fatos históricos (como a renúncia de Jânio Quadros ou a censura ao filme Os amantes, de Louis Malle). E isso num folhetim, ou seja, Nelson escrevia e publicava os capítulos dia após dia, mexendo na trama conforme as reações dos leitores.”

O teatro de Sabbath

Philip Roth – 512 páginas, Companhia das Letras

  • Paulo Paniago, professor e crítico literário
    “Morrer é muito difícil, sobretudo se você está obcecado com a ideia de morte, caso de Mickey Sabbath, personagem central deste que é o melhor romance do escritor norte-americano Philip Roth. A vida de obsceno incontrolável de Sabbath, no entanto, está numa espiral desenfreada ladeira abaixo: a amante morreu, seu ex-produtor em Nova York suicidou-se, escuta conselhos da mãe há muito falecida, a mulher é alcoólatra e a artrite o impede, do alto dos 64 anos, de fazer o seu teatro de fantoches, antigamente famoso. Obcecado também com a ideia de controlar tudo e todos, inclusive a grande saída de cena do final, ele inicia tratativas para comprar o túmulo e fazer a lápide mais provocadora e ofensiva que se possa imaginar. A vida, no entanto, sempre age a contrapelo e tem uma força enorme de atração, além de planos bem diferentes.”

Duna

Frank Herbert – 680 páginas, Aleph

  • Flávia Denise,editora da revista literária Chama
    “Este clássico da ficção científica, publicado originalmente em 1965, se tornou uma franquia com saga de livros, filmes, série de TV, quadrinhos, videogame e tudo mais que é possível derivar de uma boa história. Duna marcou profundamente a cultura ocidental – para se ter uma ideia, a obra é tida como uma das inspirações para outra saga famosa: Guerra nas estrelas. Por isso, quando busquei o livro para reler anos após o entusiasmo adolescente, tive muito medo de ter que rever o bom conceito que tinha da obra. Felizmente, não foi o caso. Duna é um livro de aventura em que política, misticismo e ecologia são questões centrais. Ele é também um tratado sobre como sociedades ocidentais constroem a figura do messias (te lembra alguém?) e criam circunstâncias em que ele deve emergir e tomar o poder, que nunca é tão absoluto quanto ele e seus apoiadores gostariam. Em suma: leitura necessária para nossos tempos.”

O romance luminoso

Mário Levrero – 648 páginas, Companhia das Letras

  • Álvaro Lins e Silva,jornalista e crítico literário
    “A decrepitude, a hipocondria, os fracassos, as mulheres, os vícios, o tango e a ioga, fazer ou não a barba, tudo se resume à tentativa de es- crever. Nas palavras do escritor uruguaio, o desespero de quem sabe que, em breve, não será mais possível escrever nem viver.”

-Em busca do tempo perdido

Marcel Proust – 2.472 páginas, Nova Fronteira

  • Rodrigo Lacerda, escritor
    “Na vida corrida que levamos, é muito difícil encontrar tempo para ler os sete volumes de uma obra que, em cada um deles, é cheia de idas e vindas, paradas e avanços, no estilo e no próprio fluxo do enredo. Mas a recompensa é proporcional ao esforço.”

-O tempo e o vento

Erico Verissimo – 2.832 páginas, Companhia das Letras

  • Luiz Antonio de Assis Brasil,escritor e professor de escrita criativa
    “A obra mais notória de Erico Verissimo pertence ao cânone brasileiro. Retrata, com força dramática e linguagem simples – mas não simplória –, a formação do Sul do Brasil através das sagas das famílias Terra e Cambará. Repassada de episódios agitados, a trilogia de Erico impõe-se como uma leitura em que se unem dois elementos capitais: o prazer da rigorosa trama e o conhecimento histórico que dela decorre.”

-1Q84

Haruki Murakami – 1.236 páginas, Alfaguara

  • Luize Valente, escritora, autora de Sonata em Auschwitz, entre outros

“Publicada originalmente em três volumes, a trilogia é centrada em duas tramas paralelas – dos personagens Tengo e Aomame – que, ao longo da narrativa, convergem. A história se passa em 1984, em Tóquio, mas livro e título têm inspiração no clássico 1984, de George Orwell. Uma narrativa carregada de elementos distópicos, com muito suspense e acontecimentos absurdos – tão presentes na obra do autor como um todo – que Murakami costura com maestria. Com uma escrita sem experimentalismos narrativos ou vocabulário complexo, o escritor japonês mescla mundo real e mundo criado (do Povo Pequenino) com tal verossimilhança que somos hipnotizados pelo universo fantástico da história.”

-O conde de Monte Cristo

Alexandre Dumas – 712 páginas, Zahar

  • Rodrigo Lacerda,escritor, autor de Outra vida e O fazedor de velhos, entre outros
    “Um retrato bastante fiel da França nos primórdios da democracia a partir da trajetória de Edmond Dantès, que desce às profundezas quando é preso injustamente, e alcança o topo da pirâmide quando escapa da prisão e enriquece. Muito provavelmente, a razão pela qual leitores de todas as épocas se deliciam com o tema da vingança decorre, de um lado, do suspense intrínseco ao tema, expresso não apenas por uma pergunta essencial (“Será que ele vai conseguir?”), cuja resposta positiva é praticamente pré-condicionada, mas sobretudo pela pergunta: “Como ele vai conseguir?”. As situações dramáticas decorrentes da opção pelos disfarces atiçam a sensibilidade e a curiosidade do leitor, criando um jogo absolutamente cativante, digno de um mestre da narrativa.”

-Estações Havana

Leonardo Padura – 880 páginas, Boitempo

  • Carlos Marcelo
    “O escritor cubano é mais conhecido no Brasil pelo best-seller O homem que amava os cachorros, mas o recolhimento forçado pode ser uma boa oportunidade para conhecer a tetralogia protagonizada pelo investigador Mario Conde: Passado perfeito, Ventos de quaresma, Máscaras e Paisagem de outono. Além da trama policial, ocasionalmente até em segundo plano, o que interessa a Padura Fuentes é retratar a dinâmica e as contradições das relações sociais em Havana, uma cidade assombrada pelas dificuldades do presente e as cicatrizes do passado, e revelar as consequências do avanço do tempo em seu desencantado e nostálgico personagem.”

Musashi

Eiji Yoshikawa – 1.832 páginas, Estação Liberdade

  • Flávia Denise,editora da revista Chama
    “Com tradução de Leiko Gotoda, o romance épico sobre a vida do samurai mais famoso do mundo tem três tomos e, por isso, é comumente chamado de trilogia. A realidade, porém, é que a obra é uma compilação de episódios de folhetim publicados no início do século 20, o que explica o aspecto hipnotizante do texto, publicado em três livros para evitar o pesadelo que seria segurar um volume de quase 2 mil páginas. A obra é uma novelização da história real do samurai Miyamoto Musashi (1584-1645), autor de O livro dos cinco anéis (tratado estratégico que tem importância, no Oriente, similar a O príncipe, de Nicolau Maquiavel, no Ocidente). Inadequado para qualquer tipo de leitura que não seja imersiva, o romance acompanha o samurai ao longo de toda a sua vida, mostrando sua difícil e turbulenta busca por perfeição espiritual e na arte da espada, transformando cada encontro num momento de profunda reflexão.”

-Anna Kariênina

Tolstói – 840 páginas, Companhia das Letras

  • Milton Hatoum,escritor, autor dos romances Dois irmãos e Pontos de fuga, entre outros
    “São famosas as frases iniciais de Anna Kariênina: “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Em seguida, o narrador escreve: “Tudo era confusão na casa dos Oblónki”. Essa abertura magnífica ressoa ao longo das 800 páginas de uma das obras-primas de Tolstói. Nela, o grande autor russo contrapõe a vida relativamente feliz de um casal ao destino trágico de um casal adúltero. “Tudo era confusão na casa dos Oblónski”, mas tudo era também confuso na Rússia da segunda metade do século 19, quando o país, imerso em várias crises, passava por um processo de modernização.

O romance não evoca apenas as relações passionais de dois casais, narradas em paralelo com dezenas de subtemas. Todas as questões passam por um exame minucioso: as sociedades rural e urbana da Rússia, as ideias em voga, as relações de trabalho e poder, as discussões e reflexões sobre economia, política, ciência, religião, filosofia. Esses grandes temas são debatidos por Liévin (alter ego do autor), seus amigos e parentes.

Antidogmático, Tolstói rejeitava todo tipo de autoritarismo. Foi excomungado por ter feito severas críticas à Igreja Ortodoxa russa, e cultivava uma espécie de “anarquismo de inspiração cristã”, como assinala Rubens Figueiredo numa nota à sua excelente tradução.

Liévin problematiza as crenças à religião, mas também à razão, tão em voga no século do positivismo e do cientificismo. Esse questionamento é central no pensamento conflituoso e na subjetividade do protagonista.

“[…]ele (Liévin) se deu conta de que não só todas as suas dúvidas como também a impossibilidade de crer por meio da razão, que conhecia por experiência própria, em nada o impediam de voltar-se para Deus.” (p. 695)

A educação do povo e a vida comunitária eram também obsessões de Tolstói. No romance há várias passagens sobre a questão agrária e a desigualdade social. Numa delas, o fazendeiro Liévin “julgava absurda a reforma das condições econômicas, mas sempre se dera conta da injustiça da sua fartura, em comparação com a pobreza do povo”. (p. 102)

Apesar das diferenças culturais e da distância geográfica e temporal, o leitor certamente pensará em suas inquietações e no Brasil de hoje. E essa é uma das riquezas desse romance russo e universal.”

Os irmãos Karamazóv

Dostoiévski – 888 páginas, editora 34

  • Luiz Antonio de Assis Brasil, escritor, autor de Escrever ficção
    “Obra-prima de Dostoiévski. Situada na antiga Rússia imperial, trata de uma família problemática – e dramática – composta pelo pai, Fiódr, e os filhos Dmitri, Ivan e  Aliêksei, cada qual com sua personalidade e sua forma de inadequação à existência. Disso resulta um romance de riso e lágrimas, que prende do início ao fim. É do que precisamos para estes dias – e para todos os outros da vida.”

-Ulysses

James Joyce – 912 páginas. Ed. Objetiva/Alfaguara

  • André de Leones,escritor, autor dos romances Abaixo do paraíso e Eufrates
    “Uma das coisas legais de se indicar Ulysses é que isso envolve pelo menos outros dois livrões: Ilíada e Odisseia. É possível ler Joyce sem ir a Troia e retornar a Ítaca? Claro que é. Mas ter com Homero é algo tão esplêndido que eu sempre sugiro a refeição completa. Quanto a Ulysses, essa obra-prima divertidíssima e inventiva, um dos três livros mais engraçados que já li (os outros são JR, de William Gaddis, e Lucky Jim, de Kingsley Amis), aqui vai outra dica: caso você não seja fluente em inglês, há três traduções brasileiras do romance; para uma primeira leitura, opte pela versão de Bernardina da Silveira Pinheiro, mais palatável, com notas e textos introdutórios a cada capítulo. E divirta-se.”

-Moby Dick

Herman Melville – 648 páginas, Editora 34

  • Maria Esther Maciel, escritora e editora da revista Olympio

“O romance do norte-americano Herman Melville foi publicado em 1851. Mais de seiscentas páginas que nos levam a uma fascinante viagem pelo mar e pelas complexas relações humanas com as forças (por vezes terríveis) da natureza. O título é o nome de uma baleia branca de tamanho descomunal, que Ahab, o capitão de um navio baleeiro busca – raivosa e obsessivamente – caçar e abater. Narrada por um marinheiro do navio, através de recursos narrativos engenhosos e linguagem poderosa, a história mescla aventura, reflexões sobre o mundo das baleias e incursões nos limites da (des)razão humana. Uma obra que mostra como uma pessoa prisioneira do ódio, da obsessão e da vingança, como é o caso do capitão, acaba por construir sua própria desgraça e aniquilamento. Um livro que, nestes tempos terríveis de hoje, pode nos ensinar muito sobre o que estamos vivendo.”

-As Benevolentes

Jonathan Littell – 907 páginas, Alfaguara

  • Jacques Fux,escritor, autor de Antiterapias e Nobel, entre outros romances
    “Até bem recentemente, muitos de nós fomos privilegiados: não passamos por guerras, não fomos perseguidos sistematicamente, a fome e a peste não nos atingiram e, apesar dos genocídios, não perdemos nossos entes queridos. Mas tudo isso mudou: uma guerra mundial contra um reles e mortífero vírus se iniciou, estamos sendo atacados enquanto espécie – e, ignorantes, ainda não nos unimos -, a economia ruirá e previsões mostram que 3% da população será dizimada. Nem os privilegiados terão a sorte de não morrer por uma praga, E, pior, muitos detêm o poder de matar e não se importam. Recomendo um livro que pode nos dar a dimensão de uma Guerra. As Benevolentes coloca o perpetrador (seria o nosso vírus?) falando do genocídio e de suas perversões diante da morte. Consciente do seu crime, o protagonista nos desnorteia: “Não defendo coerção pelas ordens tão prezada por nossos bons advogados alemães. O que fiz, fiz com pleno conhecimento de causa, julgando ser meu dever e necessário que fosse feito, por mais desagradável infausto que fosse. A guerra total também é isto: o civil não existe mais (…) As vítimas, na ampla maioria dos casos, não foram torturadas ou mortas porque eram boas, assim como seus carrascos não as torturaram porque eram maus. Seria um pouco ingênuo acreditar nisso”. Um livro forte, aterrorizante, angustiante – porém, muito aquém da realidade que nos aguarda.”

-Middlemarch

George Eliot – 884 páginas, Record

  • André de Leones,escritor, autor dos romances Abaixo do paraíso e Eufrates
    “George Eliot é o pseudônimo de Mary Ann Evans (1819-1880), uma das autoras mais importantes da era vitoriana. Subtitulado “Um estudo da vida provinciana”, Middlemarch se debruça sobre as vidas de uma teia de personagens em um momento histórico (imediatamente anterior à ascensão da rainha Vitória ao trono) prenhe de mudanças políticas e sociais. Situado na cidade fictícia do título, o livro espelha muito bem esse período convulsionado em uma de suas protagonistas, Dorothea, pessoa inteligente e audaciosa, mas presa em um casamento que se depaupera como a velha ordem das coisas.”

Boa tarde às coisas aqui em baixo

António Lobo Antunes – 568 páginas, Objetiva

  • André de Leones,escritor, autor dos romances Abaixo do paraíso e Eufrates
    “Difícil escolher um só calhamaço na obra de Lobo Antunes, o maior escritor vivo de língua portuguesa. Que tal Fado Alexandrino, Não entres tão depressa nessa noite escura ou Que farei quando tudo arde? Opto por Boa tarde por ter sido o primeiro dele que li. Seu enredo envolve as viagens de agentes portugueses que, em períodos subsequentes, vão à Angola pós-colonial recuperar diamantes contrabandeados. Com isso, perpetuam a vampirização do país africano (mas também se estrepam). A estrutura estilhaçada mistura as vozes e os tempos narrativos e obriga o leitor a um recompensador trabalho de prospecção e, por que não dizer, cocriação.”

-Explosão

Hubert Fichte – 844 páginas, Hedra

  • André de Leones,escritor, autor dos romances Abaixo do paraíso e Eufrates
    “Não me conformo que esse livro extraordinário, lançado em 2017, no Brasil, tenha merecido tão pouca atenção. Nascido das viagens de Fichte (1935-1986) pelo nosso país (e pela América do Sul) entre o final da década de 1960 e o início dos anos 1980, Explosão é um mergulho autobiográfico e experimental, mas nunca maçante. O romance integra um projeto literário inacabado, a História da sensibilidade, desenvolvido ao longo de toda a carreira por Fichte. Jäckl, alter ego do autor, circula por terreiros de umbanda e candomblé, inferninhos, zonas de prostituição, favelas, mas também papeia com figuras como Pierre Verger e Salvador Allende, tudo isso com a urgência de quem escreve “para um mundo em que a escrita não existirá mais, nem leitores, provavelmente nem mesmo olhos.”

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Fonte: https://www.em.com.br/app/noticia/pensar/2020/03/20/interna_pensar,1130608/livros-como-antidoto-ao-isolamento-um-guia-para-tempos-de-coronavirus.shtml